quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

2008

Não me perguntem porquê, mas sinto-me sempre melhor se escrever um texto no último dia de cada ano que tente resumir o que se passou em doze meses.
Doze meses… parece muito mais do que dizer *trezentos e sessenta e cinco dias*. De qualquer forma, e me questionassem quanto à duração deste, eu diria que nenhum outro ano passou tão rapidamente.
Vendo recordações de 2008, é de salientar a entrada de um novo membro nesta família, mesmo que de quatro patas e uma cauda que abana freneticamente, muito pêlo e um bafo com cheiro a… a amor, claro!; um Intercâmbio absolutamente memorável que me preencheu inúmeras noites de sono; grandes noites e tardes de Verão; novas personagens de contos e muitos textos escritos; mais sonhos; novas pessoas e novas experiências; muita, muita música; e, sobretudo, sentimentos especiais.
Este último dia do ano, bem, não parece, de facto, um último dia de um ano. Daqui a cerca de três horas entraremos em 2009 e, amanhã, terei criada uma nova pasta de fotografia no computador. Quanto a hoje, que passe rápido a meia-noite, que se junte a gente e que o espírito nos guie para algum sitio agradável.
Boas entradas (isso de entrar com o pé direito é um atentado ao feminismo!) e um bom ano 2009!

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

* Mitos

Um dia fizeram-me acreditar que existe uma figura grande que se veste de vermelho e tem barbas brancas. Baptizaram-no de Pai Natal.
Inocentemente, acreditei na história do Rodolfo de nariz vermelho que cortava o nevoeiro e da das cartas que, atiradas à lareira, iam ao encontro do homem-lenda. Do mesmo modo, acreditei no saco colossal, igualmente vermelho, por si carregado às costas e que, supostamente, contém um presente para toda a criancinha boa deste mundo… Sonhos de criança, tal como a Fada dos dentes e o Coelhinho da Páscoa.
Um dia, com palavras mudas, fizeram-me desacreditar no senhor a quem mandava cartas. Na minha casa, curiosamente, nunca houve palco para a cena em que o Pai Natal entra carregado de saco às costas; ele era simplesmente mencionado em conversas altas. Mesmo assim, a criança loira e de meio metro que era eu quis acreditar no homem do trenó.
Por outro lado, a Fada dos dentes nunca me convenceu muito, mesmo eu adorando-a por ser pequenina e ter asas. Nos primeiros tempos de dentes de leite, quando um abanava veementemente, lá ia um indicador minúsculo dizer-lhe “olha, salta daí para fora”. E ele, muito respeitoso, saltava. Aí, eu lá o escondia debaixo da almofada e fazia de tudo para adormecer rapidamente. De manhã, verificando, surpresa e desilusão, o dente de leite permanecia adormecido e imóvel deitado na minha cama. Vejo-me agora a pegar nele, olhá-lo como quem, por fim, percebe o cerne da questão e dizer interiormente, com todas as certezas do mundo, que a Fada dos dentes, afinal e contra as expectativas, não existe, não.
O Coelhinho da Páscoa, então, nunca me convenceu mesmo. A história desse era demasiado absurda. Mas é bonito o seu nome: Coelhinho da Páscoa. Cria-se logo uma imagem de um coelho, qual gigante com bolsa de canguru, guardando ovinhos de chocolate, aos saltos e aos saltos, tal como a música diz.
O Pai Natal foi, de facto, a maior desilusão. Para quê encher as cabecinhas dos meninos com parvoíces deste tamanho? Será para chegarem a um Natal de mais consciência e perceberem-se de que foram enganados? Até à data, sabe realmente bem sonhar com o homem gordo, de faces coradas e barbas encaracoladas, mas e no momento da verdade? Cai-se de choque. Ou chora-se ou não se quer acreditar ou grita-se de espanto e horror. Eu não me lembro se caí, se chorei, se gritei de espanto ou horror, mas certamente que acreditei de forma crua. Afinal, fazia todo o sentido! As cartas atiradas à lareira, pedindo aquele ursinho de pelúcia ou simplesmente o sentimento de parentela inexistente, apenas ardiam e se desfaziam diante dos meus olhos fascinados pelo fogo. E, agora, pergunto-me: como pude eu acreditar que uma carta ardida ia ter à caixa de correio do Pólo Norte do seu mágico proprietário Pai Natal? Se calhar não devia ter ficado colada ao arder da carta e ter tapado os olhos e ouvidos e virado a cara. Assim, talvez aparecesse instantaneamente um duende vestido de verde dos minúsculos pés até à pequena cabeça salvar a carta enquanto esta não ardia totalmente. Talvez se tivesse feito um desenho no fundo da carta o Pai Natal tivesse respondido. Talvez tivesse aparecido. Mas não respondeu e não apareceu.
Por isso, obrigada, Pai Natal. E, este ano, escrever-te-ei novamente, não esperando já por resposta alguma.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

Sensibilidade (e bom senso?) II

Hoje alguém me interpelou na rua e me segredou ao ouvido, com todas as certezas cravadas na voz, que o céu não é azul.
...

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

* Conversas de Anjos III

Já reparaste no movimento das formigas?
Sim.
Estávamos sentados numa montanha, no seu grande topo. De lá de cima víamos outras montanhas, a cor a fugir-lhes à medida que se afastavam. A certo ponto, dei por mim de olhos presos a uma cadeia de formigas acorrentadas em fila indiana. Julgando pelo teor da tua questão introdutória, os teus olhos estar-lhes-iam fixos pouco antes dos meus.
A sociedade das formigas é uma utopia real, disse.
- Não será isso um contra-senso?
… A utopia real das formigas, pensei alto. Tu mudaste de posição e, seguindo a direcção dos meus olhos, fixaste novamente o tracejado negro que escalava os altos e descia os baixos de um solo irregular.
De seguida emitiste pequeno som de quem admite algo.
- A utopia real das formigas.
Foi a minha vez:
Uma vez, alguém disse que as pessoas mais admiráveis são, definitivamente, as metódicas. As formigas não são pessoas, mas são, definitivamente, admiráveis pelo seu método.
- Será que alguma vez funcionaremos assim?
Eu guardei a resposta para mais tarde.
Imagina: vivemos, hipoteticamente, no corpo de formigas. Protegemos o nosso espaço e, mais do que isso, respeitamo-lo. A harmonia é a cor das paredes do nosso lar…
- Mas…
Mas, por vezes, essa harmonia é dissolvida pelo pânico e agitação vivida pela frustração de corpos minúsculos. Por outro lado, sendo nós metódicas e organizadas, defendemos as nossas paredes sagradas em conjunto.
- E prevalecemos.
Prevalecemos. Desta forma, as formigas têm o que cada vez menos se consegue ter e isso é…
- … A união – completaste simples e perfeitamente.
Eu anuí.
Aí, tu rebentaste. De pé, gritaste para todas as montanhas os males de se ser formiga, E, depois, olhaste para mim com os olhos em água tocados com o sentimento de plena desaprovação.
- Tinhas asas… para que foste?
As asas caíram. Fui para fugir.
Tinhas mãos e tinhas pernas… para que foste?
As asas caíram primeiro.
- Mas tu não és formiga!
Com um tom mais ríspido, fiz-te ver que há-de sempre haver uma parte de nós coberta por um vestido negro de formiga.
- Mas tinhas espírito…
Será que ainda tenho?, era uma questão retórica e, como tal, desprendi o meu olhar do da longa corrente de criaturas minúsculas e olhei-te de sobrolho franzido. Depois continuei: o meu espírito ficou parcialmente apagado, porque as asas caíram. Eu precisei de fugir.
Pausa.
E não, nunca funcionaremos assim, concluí.
Levantei-me, desprendi-me de vez da visão do rastilho preto no chão, foquei o céu que nos abraçava separadamente, lancei-me do alto da montanha e fingi voar por entre todo conjunto delas.
- Onde vais, formiga? – gritou a suspirar.


(Aluap & Setnop)

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

* Mistério

Mistério… tem um sabor que não saboreio. Afinal, só é mistério até o deixar de ser e, quando deixa, porque deixa sempre e, pior, muito rapidamente, fica sem sabor. É fraco demais para se sentir, já que os sentimentos mal se sentem. São é insuportáveis quando calham de fazer questão de ser sentidos. Mas mistérios? Efémeros. E sentimentos? O maior mistério.
De qualquer forma, saboroso é o sabor de mistério não saboreado… Faz mover – mover os cantos da boca pelo perigo do desconhecido; os olhos aceleradamente; o batimento cardíaco face à mudança, ao toque que não se conhecia… Tudo para chegar ao fim e perceber um mistério que acaba por não ser mais mistério. A ambição do mistério e o mistério da ambição. Um mistério, por mais misterioso que seja, é revelado… E o mistério envolvido revela-se tristemente insignificante. Ou seja, o mistério controla os sentimentos, mas quando o mistério é revelado o sentimento é como que abatido. Por isso, espero pacientemente pelo mistério que permaneça misterioso e que o sentimento não pereça e permaneça um mistério.
Nos maus dias, os anjos tiram as máscaras de noite. Cuidado com os morcegos.


terça-feira, 2 de dezembro de 2008

* Iseree III: O Velho de Vidro

Hannokan estava sentado; suas pernas escrevendo um x e o rosto apoiado numa mão. Ao som daquela maravilhosa junção de piano e violino, o pensamento dele voava sob uma névoa de infelicidades. Pelos seus lados, dizia-se que a ténue cor dos seus olhos se devia às lágrimas que nunca conseguia conter.
Estou a morrer, pensava ele. Sempre faltara mais. Agora, no auge do desmaio das suas capacidades físicas, só lhe restava ficar sentado a escutar os sons que lhe faziam perguntar o porquê de nunca ter sorrido à vida.
Porquê? Muitos são os que sorriem para a vida e tu nunca foste um deles. Sempre preferiste fazer as tuas caminhadas sozinho; pintaste as telas que nunca ninguém viu; rasuraste papel para mais ninguém além de ti e nunca te chamaste egoísta por isso. No entanto, choraste por alguém que nunca veio; rogaste pragas a gente que não conheceste e, todos os dias, colocaste pratos, copos e talheres numa mesa para muitos mais do que tu. Nunca conheceste a palavra tristeza, mas sempre a sentiste. Hoje choras mais pela tua carência social do que pelos ossos de vidro que te prendem ao chão. Para quem foram todas aquelas cartas que escreveste e afogaste num rio? Sempre escreveste o que te ia na mente, velho de vidro, sempre pintaste o que te ia no coração, velho de vidro, e sempre tocaste o que te ia na alma. Alma, coração e mente – não é suposto estarem unidos? Pois as tuas cartas caracterizavam um mundo que é redondo; as tuas telas idealizavam um mundo quadrado; e as tuas baladas soavam tal qual um mundo disforme, onde tudo é de alcance possível se se tiver asas.
Eu tenho asas e tu também pensas ter. Eu senti o que tu sentiste quando recebeste uma carta extraviada… estava ela tão próxima de ti, contendo uma notícia; um choro de saudade; um dilema de preocupação de alguém, algures, algum dia, alguma noite, numa qualquer hora… e afinal a carta que começava com um melodioso “querido amigo” não era para ti. Bem reparei nas lágrimas que derreteram os teus olhos. Os teus joelhos bateram no chão e a carta escapou-se-te das mãos quando chegaste ao fim da leitura e não viste o teu nome. O teu coração rasgou-se ali, não foi, velho de vidro? Rasgou-se e o vento varreu-o até as minhas mãos estendidas. Eu sou invisível aos teus olhos, embora penses ter asas. Agora não te podes levantar. Tens as telas ao teu alcance, assim como as folhas brancas do teu caderno, mas não podes chegar ao piano. Falta-te um ponto na tua vida de vidro.
A minha cor preferida é o verde. A tua é o castanho avermelhado. Sempre adoraste desenhar o Outono por isso. Esses são os teus mais belos quadros. Neles as personagens dançam, embora não se consigam mexer, e neles as folhas das árvores cantam e a terra do chão toca a mais pura melodia… A utopia do Outono.
Suspiro. Tu nunca suspiraste. Nunca te constipaste. Sempre definhaste. Sempre passaste as mãos compridas pelos olhos e nunca tiveste quem te estendesse um lenço. Por que motivo nunca chamaste por mim? Hoje aqui estou, velho de vidro, e a palavra que mais te vejo estampada no rosto é a palavra feia da solidão. Quando caíste no dia do teu sexto aniversário e foste privado de sair à rua, desististe de tudo, excepto três coisas. Os anos foram passando e tu continuavas sem querer mais nada… a tua família foi-se e tu continuaste apegado aos três pontos que, sem acompanhamento algum, fizeram de ti o que és hoje. És um solitário, velho de vidro, sempre foste um solitário e hoje a tua vida de solitário vai terminar como sempre a conheci.
Apenas hoje, no teu último dia, te vou contar o porquê de não ter falado mais cedo. Quando o vento empurra, eu apareço e ajudo. Mas tu nunca quiseste a minha ajuda; nunca quiseste partilhar nada com ninguém, nem mesmo a tua dor. Tu conhecias-me, velho, sabes que sim. Desenhaste-me muitas vezes nas tuas telas outonais e primaveris, onde o verde reina junto ao castanho avermelhado. A minha cor e a tua. Mas nunca me quiseste ver, nunca me quiseste sentir. Nunca quiseste as minhas asas – querias umas só para ti. Por isso, eu não te ajudei. Só te vi definhar, velho de vidro, e sempre com uma lágrima no olho, tal como tu. Contudo, a minha dor é mais insuportável do que a tua, porque a tua termina hoje – a minha vai prolongar-se, porque eu não termino. Sou um ciclo com asas verdes. A culpa de ter correntes de dor que me agarram as pernas é tua, vidro, tua e só tua. Arrepende-te neste minuto que te sobra do horror de ser solitário egoísta e morre nos confins do castanho avermelhado. Eu acabarei por voltar ao verde.
Hannokan fechou, por fim, os olhos e o choro de uma vida espalhou-se pelo chão. O vento abriu a janela entreaberta dum espaço que sempre rejeitou a luz e iluminou um homem pálido cujos olhos adquiriram a cor das lágrimas. Os objectos colocados por cima da mesa onde trabalhava foram arrastados pela brisa oriental. Lá fora, as cerejeiras brancas pediam a atenção que nunca lhes foi dada. Ele foi-se.
As cartas vieram ter a mim, velho de vidro. Vi os teus quadros ao pormenor através de uma lupa e ouvi as tuas melodias pacificamente sentada num dos poucos móveis que a tua casa guarda. Nunca estiveste tão sozinho como pensavas, mas pelo menos morreste sabendo que as minhas asas têm a cor mais bonita que a Natureza criou. E viste-me voar, velho homem de vidro, Iseree que sou.

domingo, 30 de novembro de 2008

* Mashli I

Querida Mashli,

Se todos fôssemos madeira desconjunta, não haveria falta de oxigénio. Jamais seríamos assaltados pela claustrofobia e esqueceríamos a fala.
Espíritos têm-nos também os elementos. Se fosses elemento serias a Terra. Pensei também no Fogo, mas a parte tua que é vocábulo é sinónimo de lealdade e tal não arde. A Terra. Eu seria a Água ou, possivelmente, o Ar, mas a Terra serias tu. Por vezes penso que tens raízes que te prendem ao solo. Dir-te-ão algo os pássaros? Sim, Mashli, eu sei que dizem e cantam. O eu deles que é vocábulo é sinónimo de liberdade.
Terra é o teu nome do meio, já que não sabes voar. Voa, Mashli, e sê feliz, nem que por um dia. Ou então mergulha. Eu dou-te as mãos. Arrisca, mas não te afogues, porque, mesmo com seis membros, os pulmões é que ditam o ar que respiras. Funde-te com outro elemento, para que não sejas só Terra. Sê Ar, Mashli, ou sê Água ou sê Fogo, mas voa por um dia que seja. Um outro elemento completar-te-á. O dilema tu conhece-lo bem. O dilema é o pormenor da esfinge: tens de perceber qual outro elemento és.

H.

Maio de 2008

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

* Iseree II

Por onde andas, minha querida Iseree?
Penso que deverias despedir-te das tuas tão merecidas férias e voltar ao imenso redondo de todas as cores para cobrir os gelados.
Por cá sente-se frio, Iseree. E o vermelho deixou de se ver. O verde também, curioso. O azul teve o mesmo destino.
Houve uma outra que se tornou constante. O que me dizes do cinzento?
Sim, eu sei que é a tua cor preferida, mas não deixa de reflectir o neutro que em nós vive. Aliás, a oitava letra do abecedário é quem nos melhor conhece. Porque vejamos: conhecemo-nos a nós em nós confiamos o que de nós acontece e acontece a nós, porque somos nós e só a nós o nós nos diz respeito e só nós nos merecemos, se é que merecemos algum nós que nós sejamos.
Quem nos conhece, afinal? Quem conhecemos?
Precisamente:
- Ninguém – diz a voz silenciosa.
Curioso que sai uma palavra da garganta, do nariz ou da boca e espalha-se pelas rosas, silvas e árvores.
Uma vez mais: onde andas, querida Iseree?
Onde está a tua tela de azuis e amarelos?
Volta, por favor… Tenho frio e não tarda estarei cega.
Quero acordar à luz da gélida manhã, ouvindo os acordes de quem sente, rodeada pelo verde da esperança que já não existe, saber sorrir e agradecer.
Lembrem-se: o vento só empurra.

terça-feira, 18 de novembro de 2008

Mickey Mouse


Diz que o rato mais famoso do mundo faz anos hoje.
Oitenta anos: estás velho.

* Conversas de Anjos II

Sentaste-te costas com costas comigo e disseste:
- As nuvens estão escuras.
Eu não disse nada e mantive a cabeça apoiada nas mãos e estas nos joelhos.
- Estive a observar o jardim. Hoje, apenas uma magnólia não floriu. Acho que as nuvens não se abriram para ela, afinal. Que dizes?
Não demorei muito a pensar numa resposta.
Possivelmente, a magnólia está cansada de florir todos os dias para ver apenas o mesmo jardim de flores, disse.
- Mas um jardim muda todos os dias. Alguns dos seus habitantes mudam-se ou vão e novos chegam.
A magnólia não se deve interessar pela vizinhança, então, disse eu com um suspiro.
- Mas um jardim interessa-se por todos os seus condimentos, sabes?
Aí arrancaste-me um sorriso dos lábios; quem mais usaria a palavra condimento fora de uma sopa?
- As nuvens estão escuras e eu sei porquê. Tu deves saber também. E, se a magnólia não quer saber dos vizinhos, por que se levanta ela cedo e se recolhe à tardinha? Algo me diz que esta magnólia semi-autista ainda consegue sentir afecto por, talvez, outras magnólias.
Acordaste-me! Estalo na mente…
Sim, julgo que se virmos o quadrado representado com essas invisíveis fará dele um cubo, disse.
- Tinhas asas. Por que foste?
Caíram. Tive de fugir.
- Tinhas pétalas e tinhas folhas. Por que foste?
Porque as asas caíram primeiro.
- E as nuvens?
As nuvens estão sempre no céu, leves ou carregadas e até mesmo invisíveis.
Sorrimos.
Depois expliquei-te que, embora não aparentem, os cactos são sensíveis e esse é o motivo pelo qual têm espinhos. Por vezes encontram-se magnólias com espírito cacticída. Talvez não queiram ver o jardim nesses tempos e talvez por isso as nuvens escureçam também.
- As nuvens estão sempre no céu, apesar de tudo.
Dito isto, mudaste de posição por um momento, durante o qual me deste um beijo na parte lateral da cabeça – os teus carinhos reconfortantes. Agradeci e, dessa vez, não atirei o saco ao ombro e calquei o chão.
Subitamente, as nuvens pareciam mais claras.


(Aluap & Egroj)

domingo, 16 de novembro de 2008

* Sonhador II: O Sentimento

Certo dia, o sonhador tornou pisar a terra dos sonhadores. Estava deserta, claro, mas ele sentia-se quente. E frio. O calor provinha do seu pensamento intacto, mas a frieza da sua desgraça fazia com que chovesse naquele caminho deserto, na terra dos sonhadores.
O sonhador ia percorrendo o caminho ao som melancolicamente melodioso da chuva sem nunca se molhar, passando pelas bandeiras e flores dos vasos que jamais secariam. E caminhava sem perceber o voar do tempo, que só por essa vez não o preocupava, pensado na semelhança entre a profundidade de um rio e a longitude da infelicidade de um sonhador.
Parou junto da tabela que marcava o caminho que o levaria ao passo seguinte. Não o seguiu, porque é sonhador e o sonhador tem um outro mal que é picar a sua infelicidade… E a chuva cai. Baixa a cabeça e solta um suspiro que lhe limpa parte da alma e solta alguns pingos de chuva. Vira-se, confrontando de novo o caminho da terra do sonhador a que acabara de virar as costas. Percorre-o outra vez, ao som da chuva que, pouco a pouco, vai cessando.
Quando a chuva o deixa de vez, decide sentar-se debaixo da magnólia que, curiosamente, acaba de florescer e devolve um pouco de cor à terra do sonhador. E, depois, calca o solo seco ao som da música que o faz pensar. É tudo psicológico, excepto quando dói. E a dor que mais magoa não é a que deixa a pele com marcas, é sim a que provoca olheiras, frio e chuva; tudo coisas que completam a vida do sonhador.
Entretanto, a chuva volta e as flores encolhem-se na árvore que as criou quando o sonhador se volta a concentrar no ponto onde dói. É aí que leva as mãos à cabeça e pensa nas misérias de se ser sonhador: a solidão e a falta de compreensão e o medo da falta de compreensão são o cancro do sonhador.
E dói.
É o fardo que o sonhador tem de carregar por ser incompreendido pelos lineares que têm rotinas e não sonham de olhos abertos. Quando o que sonha percorre as ruas de uma cidade, não vê os homens a passar como um outro qualquer. Ele sente-os. E a sua rapidez torna-se uma linha de luz que marca o lugar por onde passam, fugazes. O sonhador apenas a presencia, sozinho. Os olhos a varrer o trajecto da luz do homem… é uma droga: uma droga que arrasta a mente a algo que apenas o sonhador sabe. Eis o porquê de ser incompreendido: o sonhador sente mais do que os outros, porque é sensível. O sensível é sonhador. O insensível é real e o real é insensível e segue a sua rotina com uma luz que lhe segue o movimento atroz. Pelo contrário, ao fim do dia, o sonhador fecha o seu livro com a chuva dos seus olhos e apaga a luz. E sonha. É este o sonho do sonhador que mais se parece com o dos homens reais: o sonho da noite, o sonho da divagação da mente, o mover imparável dos olhos durante o sono.
Quando acorda, o sonhador vai sentir o sol. Promete não voltar a cair no poço dos seus pensamentos infelizes, visto que são eles o elo da incompreensão e da vida de um sonhador. Mas volta. É este o ciclo do pensamento infeliz que faz com que chova nos olhos do sonhador, sentindo ele as lágrimas correr pelo rosto e pensando nos males de ser sonhador. E dói, porque a dor é mesquinha e traiçoeira. Ela nasceu do físico e do psicológico, sendo que tem os olhos da mãe. O corvo que a trouxe expunha uma nota a dizer: a chuva é igual à infelicidade e é por isso que a dor dói.

sábado, 15 de novembro de 2008

* Sonhador I: A Mensagem

Podias percorrê-lo de uma ponta à outra que nunca encontrarias ninguém.
No chão permaneciam os vestígios da chuvada do dia anterior e as bandeiras dançavam a canção do vento.
Apenas os sonhadores o pisaram e só eles sabiam o porquê de não haver lixo no chão nem flores secas nos vasos.
Sonhador é todo aquele que começa a falar falando sozinho e cresce a falar sozinho, sem nunca completar uma ideia verbalmente. Vive a falar sozinho, porque teme que não o ouçam. Sonha em plantar um feijoeiro algures no jardim e em vê-lo passar de semente a raiz, mas no fim desilude-se, porque o seu feijoeiro é só mais um feijoeiro, embora se console porque o seu feijoeiro é o único feijoeiro de um sonhador. Mas não é e quem é sonhador sabe-o bem. Por isso, os sonhadores mentem a si próprios.
O bom de ser sonhador é que há sempre algo a associar. As personagens que lemos são sempre benfeitores de vidas e todos os sons que ouvimos são, de certa forma, uma lagoa de água cristalina que entra e não mais sai.
O mau de ser sonhador é a solidão. Não há um sonhador que complete outro sonhador, porque os sonhadores são todos os pássaros num bando e todas as pétalas de uma magnólia.
É triste ou acaba por ser.
São delicados, os sonhadores. E arrepiam-se e cortam-se e sujam-se e molham-se, mas nunca esticam pernas e correm, muito menos puxam os seus pescoços sem abrir os olhos (embora o façam).
Há sempre um espaço a preencher. O erro do buraco de Ozono no corpo do que sonha. Irónico para quem assiste sem toque, mas quem sofre de tacto permanente e conhece realmente o sonhador, acaba por sofrer do mesmo cancro. Mas não o vive, porque vivê-lo cabe ao sonhador.
Para quem não é sonhador só resta dizer que eles sonham com a presença da música, que sai da terra, das nuvens, do fogo e da água. Com um ponto alto, sabem lá eles onde fica, onde se vê o mundo em forma de formigueiro. Com os rios a espelhar o céu e com os fins de tarde e os inícios de dia. Tudo deles, tudo neles e eles em tudo.
E sofrem, porque o que têm nunca vai completar o enredo de uma história nem um caminho onde não se vê ninguém, porque esse caminho é nada mais do que o sonho do sonhador.

domingo, 9 de novembro de 2008

* Solilóquio do nada

Os meus passos de nada ecoavam no corredor. Lembro-me que caminhava rumo ao nada, o nada seguindo-me e cercando-me e o nada reflectindo o som dos meus passos que pouco mais do que nada sabiam. O nada acabou quando surgiu a porta que eu viria a abrir. Feito, o nada acabou e deu lugar a mais nada.A sala que se materializou diante dos meus olhos que nada viam estava, igualmente, repleta de nada. Branca, alta, grande, surgiu-lhe uma cadeira no centro e uma janela ao lado. Estava aberta e as cortinas dançavam ao som do nada. Por nada, sentei-me e, por nada, olhei para fora. A paisagem era, curiosamente, pintada de nada e para o nada fiquei a olhar. Aí pensei que, se nada é nada, sendo o nada algo, o que deveria estar eu a ver a partir de uma sala e de uma janela que mostram nada? A resposta surgiu leve na minha mente: nada. Um céu, uma estrada, um ciclo social, um carro, um som? Nada.
Há dias em que vemos a vida dividida em duas mãos: uma cheia de nada e outra de coisa nenhuma. Nesses dias, percorremos corredores de nada e encontramos salas com ornamentos de coisa nenhuma, rigorosamente limitadas a cadeiras e janelas de nada. Olhando através das janelas, vemos nada atrás de nada. São dias de nada que nada nos mostram, mas que ensinam muito mais do que nada, já que o nada é algo e algo não é nada.
Uma representação solitária; um palco com nada; citações de nada, sobre o nada e o nada que o nada é… O solilóquio do nada acabou por se tornar, literalmente, um dia de nada.

E este foi um dia de
nada.

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

* Iseree I


Devido a oscilações do vento, Iseree viajou pelo mundo.
O pânico esconde-se em todo o lado. Por vezes dá a cara e traz infelicidade. Nessas alturas, o vento empurra Iseree pelo mundo fora, uma e outra vez. O medo cruza-se com a infelicidade, originando cegos e gelados. Iseree dá a mão. O azul do gelo e das lágrimas junta-se, então, ao amarelo, seu amigo de sempre, originando, por sua vez, o verde, a cor da esperança. Iseree sobrepõe-se ao medo e à infelicidade, limpa os olhos aos cegos e cobre os gelados. Tudo acaba por ficar bem.
Andromeda ficou sem marido, filha e genro. Deixaram-lhe uma criança. E, mesmo sendo uma personagem irrelevante, Iseree ajudou. Também por ela passou o ciclo do azul-amarelo-verde.
Na luz gélida da manhã, os acordes despertam quem sente. Andromeda acorda, rodeada pelo verde da esperança, na luz gélida do dia. Lembra-se como se sorri e agradece.
O vento empurra outra vez. Pânico, infelicidade, Iseree, azul-amarelo-verde. E outra vez. Pânico, infelicidade, Iseree, azul-amarelo-verde.
Iseree tem alma, Iseree ouve os acordes da gélida luz do dia, Iseree sente. É Iseree quem melhor conhece o verde. O vento é só quem empurra, ajudando assim a formar o ciclo do azul-amarelo-verde, o ciclo da felicidade-infelicidade, o ciclo da vida.


3 de Agosto de 2007

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

I Narcisismo

Quando eu te encarei
Frente a frente
Não vi o meu rosto
Chamei de mau gosto o que vi
De mau gosto o mau gosto
É que Narciso acha feio
O que não é espelho
E a mente apavora o que ainda
Não é mesmo velho
Nada do que não era antes
Quando não somos mutantes.
Caetano Veloso

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

*

O espaço
que deveria
conter

a

p
a
la
vra

«frágil» foi,
de certo modo,
preenchido
com
expressões
que
fazem

a

T
e
r
r
a

virar...

CÉU.

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

domingo, 19 de outubro de 2008

* Adeus, Família.


Dás início à tua viagem.
Levas contigo tudo aquilo que viste. Pisas pedras, terra e erva coberta pelo orvalho, enquanto que na tua mente passam imagens do passado que nunca irás esquecer. Lembranças e memórias que dão origem a lágrimas no canto do olho e suspiros de saudade…
Caminhando, relembras tudo aquilo que viveste… As escapadelas de casa porque os pais não deixavam sair; as marcas de vandalismo deixadas pelo grupo em toda a vila; os tempos em que fugir dos velhos policiais, que recebiam queixas de moradores sonolentos pelo barulho ensurdecedor, com o vento gelado a bater na cara e abrir antigas feridas nas mãos, não eram nada mais que rotina de fim-de-semana; pelas corridas discretas a becos escuros para deliciar o vício do tabaco e do álcool; os extensos planos para as férias; o jogar bilhar debaixo de uma nuvem de fumo; os risos e sorrisos mais as vozes dos teus amigos que preenchem a tua mente… Não hás-de esquecer.
O teu saco apenas carrega a carteira e As 100 Histórias à Lareira, que sempre recusaste abandonar. Nas entranhas do livro, inúmeras fotografias gastas pelo tempo, esburacadas, cheias de dedadas e pequenas dobras, marcam as folhas. Essas são a prova viva dos teus pensamentos. Dentro em pouco vais largar de vez tudo isso.
Chegas à estação dez minutos mais cedo. O comboio já está de portas aberta, convidando os passageiros a entrar. Tu não. Olhas à tua volta à espera que o sonho se realize… As largas janelas deixam a luz entrar e de vez em quando sentes pessoas a passar por ti, embora os teus olhos se recusem a ver. Os minutos vão passando… Nos últimos, baixas a cabeça, desiludido. Perdeste. Idealista que és, iludiste-te com os sonhos. Eles não vieram. Libertas-te da posição relaxada do teu corpo e fazes força nos músculos. Pisas o degrau e um ruído faz-te olhar para trás.
Cai-te o queixo. Não podes acreditar, não dá… era um sonho e tu já estavas mentalizado disso, embora não desfeito pela desilusão. Falha-te a mão e largas o saco… eles vieram! Correm ao teu encontro. Uma fila de engravatados e bem vestidos que outrora não largavam as sapatilhas carregadas pelo sentimento emocional olham para ti. Uns, que nunca deixaram a sensibilidade, emocionados e outros, sempre duros com eles próprios, tentando controlar os sentimentos.
- Aos anos, meus irmãos!
E sob a confusão da estação na hora da partida, a família abraça-se.
O comboio faz-se ouvir, furioso com os atrasos. Os antigos companheiros de vida deixam-se e tu, pegando no saco, afastas-te sem mais palavras. Sentado, olhas para a janela e, com os olhos, despedes-te daqueles que não sabes sequer se voltarás a ver. Lá fora, a fila de amigos olha-te com os olhos pesados de emoção…
Sim, como as coisas mudam.
Dás agora início a uma nova viagem… Fechas os olhos e sentes tudo a deslocar-se, ainda maravilhado com a surpresa, coisa que sempre odiaste.
Adeus, família.
Adeus...

Domingo, 16 Dezembro de 2007

sábado, 20 de setembro de 2008

* Conversas de Anjos I

Não olhes assim para mim; tenho de me ir embora. Não me olhes assim. Preciso de fugir – disse.
Perguntaste porquê e eu não soube o que responder. É uma necessidade, acabei por dizer. E fechei os olhos e baixei a cabeça, já esperando um grito de quem pensa no egoísmo dos anjos. Mas não. Da tua boca saiu um suspiro de choro. Olhei a medo. As lágrimas estavam presas à força nos olhos. Aguenta, aguenta; não pretendo ver-te chorar hoje.
- Tens asas! Para que vais?
As asas caíram.
- Tens mãos! Para que vais?
As mãos não mexem.
- Tens espírito! Para que vais?
O espírito precisa de paz. Não a tendo, é como uma caixa de surpresas sem segredos...
- Tinhas asas…
Caíram.
- E saudade?
Não conheço.
- E as tardes da brisa de Verão?
Deram lugar às frias ventanias de Outono.
- E nós?
Vós… vós sois as nuvens – sempre no céu, mesmo que não se vejam.
Sorrimos. Virei as costas e atirei a bolsa ao ombro. Olhei-te nos olhos um momento antes e pensei em muitas palavras de despedida que jamais fariam sentido.
Adeus! - acabei por dizer. E tu ficaste para trás, à medida que eu calcava o solo numa direcção diferente, pensando tu na mudança de cor dos meus olhos.

(Aluap & Atir)