sábado, 15 de novembro de 2008

* Sonhador I: A Mensagem

Podias percorrê-lo de uma ponta à outra que nunca encontrarias ninguém.
No chão permaneciam os vestígios da chuvada do dia anterior e as bandeiras dançavam a canção do vento.
Apenas os sonhadores o pisaram e só eles sabiam o porquê de não haver lixo no chão nem flores secas nos vasos.
Sonhador é todo aquele que começa a falar falando sozinho e cresce a falar sozinho, sem nunca completar uma ideia verbalmente. Vive a falar sozinho, porque teme que não o ouçam. Sonha em plantar um feijoeiro algures no jardim e em vê-lo passar de semente a raiz, mas no fim desilude-se, porque o seu feijoeiro é só mais um feijoeiro, embora se console porque o seu feijoeiro é o único feijoeiro de um sonhador. Mas não é e quem é sonhador sabe-o bem. Por isso, os sonhadores mentem a si próprios.
O bom de ser sonhador é que há sempre algo a associar. As personagens que lemos são sempre benfeitores de vidas e todos os sons que ouvimos são, de certa forma, uma lagoa de água cristalina que entra e não mais sai.
O mau de ser sonhador é a solidão. Não há um sonhador que complete outro sonhador, porque os sonhadores são todos os pássaros num bando e todas as pétalas de uma magnólia.
É triste ou acaba por ser.
São delicados, os sonhadores. E arrepiam-se e cortam-se e sujam-se e molham-se, mas nunca esticam pernas e correm, muito menos puxam os seus pescoços sem abrir os olhos (embora o façam).
Há sempre um espaço a preencher. O erro do buraco de Ozono no corpo do que sonha. Irónico para quem assiste sem toque, mas quem sofre de tacto permanente e conhece realmente o sonhador, acaba por sofrer do mesmo cancro. Mas não o vive, porque vivê-lo cabe ao sonhador.
Para quem não é sonhador só resta dizer que eles sonham com a presença da música, que sai da terra, das nuvens, do fogo e da água. Com um ponto alto, sabem lá eles onde fica, onde se vê o mundo em forma de formigueiro. Com os rios a espelhar o céu e com os fins de tarde e os inícios de dia. Tudo deles, tudo neles e eles em tudo.
E sofrem, porque o que têm nunca vai completar o enredo de uma história nem um caminho onde não se vê ninguém, porque esse caminho é nada mais do que o sonho do sonhador.

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