Já reparaste no movimento das formigas?
Sim.
Estávamos sentados numa montanha, no seu grande topo. De lá de cima víamos outras montanhas, a cor a fugir-lhes à medida que se afastavam. A certo ponto, dei por mim de olhos presos a uma cadeia de formigas acorrentadas em fila indiana. Julgando pelo teor da tua questão introdutória, os teus olhos estar-lhes-iam fixos pouco antes dos meus.
A sociedade das formigas é uma utopia real, disse.
- Não será isso um contra-senso?
… A utopia real das formigas, pensei alto. Tu mudaste de posição e, seguindo a direcção dos meus olhos, fixaste novamente o tracejado negro que escalava os altos e descia os baixos de um solo irregular.
De seguida emitiste pequeno som de quem admite algo.
- A utopia real das formigas.
Foi a minha vez:
Uma vez, alguém disse que as pessoas mais admiráveis são, definitivamente, as metódicas. As formigas não são pessoas, mas são, definitivamente, admiráveis pelo seu método.
- Será que alguma vez funcionaremos assim?
Eu guardei a resposta para mais tarde.
Imagina: vivemos, hipoteticamente, no corpo de formigas. Protegemos o nosso espaço e, mais do que isso, respeitamo-lo. A harmonia é a cor das paredes do nosso lar…
- Mas…
Mas, por vezes, essa harmonia é dissolvida pelo pânico e agitação vivida pela frustração de corpos minúsculos. Por outro lado, sendo nós metódicas e organizadas, defendemos as nossas paredes sagradas em conjunto.
- E prevalecemos.
Prevalecemos. Desta forma, as formigas têm o que cada vez menos se consegue ter e isso é…
- … A união – completaste simples e perfeitamente.
Eu anuí.
Aí, tu rebentaste. De pé, gritaste para todas as montanhas os males de se ser formiga, E, depois, olhaste para mim com os olhos em água tocados com o sentimento de plena desaprovação.
- Tinhas asas… para que foste?
As asas caíram. Fui para fugir.
Tinhas mãos e tinhas pernas… para que foste?
As asas caíram primeiro.
- Mas tu não és formiga!
Com um tom mais ríspido, fiz-te ver que há-de sempre haver uma parte de nós coberta por um vestido negro de formiga.
- Mas tinhas espírito…
Será que ainda tenho?, era uma questão retórica e, como tal, desprendi o meu olhar do da longa corrente de criaturas minúsculas e olhei-te de sobrolho franzido. Depois continuei: o meu espírito ficou parcialmente apagado, porque as asas caíram. Eu precisei de fugir.
Pausa.
E não, nunca funcionaremos assim, concluí.
Levantei-me, desprendi-me de vez da visão do rastilho preto no chão, foquei o céu que nos abraçava separadamente, lancei-me do alto da montanha e fingi voar por entre todo conjunto delas.
- Onde vais, formiga? – gritou a suspirar.
(Aluap & Setnop)
Sim.
Estávamos sentados numa montanha, no seu grande topo. De lá de cima víamos outras montanhas, a cor a fugir-lhes à medida que se afastavam. A certo ponto, dei por mim de olhos presos a uma cadeia de formigas acorrentadas em fila indiana. Julgando pelo teor da tua questão introdutória, os teus olhos estar-lhes-iam fixos pouco antes dos meus.
A sociedade das formigas é uma utopia real, disse.
- Não será isso um contra-senso?
… A utopia real das formigas, pensei alto. Tu mudaste de posição e, seguindo a direcção dos meus olhos, fixaste novamente o tracejado negro que escalava os altos e descia os baixos de um solo irregular.
De seguida emitiste pequeno som de quem admite algo.
- A utopia real das formigas.
Foi a minha vez:
Uma vez, alguém disse que as pessoas mais admiráveis são, definitivamente, as metódicas. As formigas não são pessoas, mas são, definitivamente, admiráveis pelo seu método.
- Será que alguma vez funcionaremos assim?
Eu guardei a resposta para mais tarde.
Imagina: vivemos, hipoteticamente, no corpo de formigas. Protegemos o nosso espaço e, mais do que isso, respeitamo-lo. A harmonia é a cor das paredes do nosso lar…
- Mas…
Mas, por vezes, essa harmonia é dissolvida pelo pânico e agitação vivida pela frustração de corpos minúsculos. Por outro lado, sendo nós metódicas e organizadas, defendemos as nossas paredes sagradas em conjunto.
- E prevalecemos.
Prevalecemos. Desta forma, as formigas têm o que cada vez menos se consegue ter e isso é…
- … A união – completaste simples e perfeitamente.
Eu anuí.
Aí, tu rebentaste. De pé, gritaste para todas as montanhas os males de se ser formiga, E, depois, olhaste para mim com os olhos em água tocados com o sentimento de plena desaprovação.
- Tinhas asas… para que foste?
As asas caíram. Fui para fugir.
Tinhas mãos e tinhas pernas… para que foste?
As asas caíram primeiro.
- Mas tu não és formiga!
Com um tom mais ríspido, fiz-te ver que há-de sempre haver uma parte de nós coberta por um vestido negro de formiga.
- Mas tinhas espírito…
Será que ainda tenho?, era uma questão retórica e, como tal, desprendi o meu olhar do da longa corrente de criaturas minúsculas e olhei-te de sobrolho franzido. Depois continuei: o meu espírito ficou parcialmente apagado, porque as asas caíram. Eu precisei de fugir.
Pausa.
E não, nunca funcionaremos assim, concluí.
Levantei-me, desprendi-me de vez da visão do rastilho preto no chão, foquei o céu que nos abraçava separadamente, lancei-me do alto da montanha e fingi voar por entre todo conjunto delas.
- Onde vais, formiga? – gritou a suspirar.
(Aluap & Setnop)
1 comentário:
Bom! :)
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