Os meus passos de nada ecoavam no corredor. Lembro-me que caminhava rumo ao nada, o nada seguindo-me e cercando-me e o nada reflectindo o som dos meus passos que pouco mais do que nada sabiam. O nada acabou quando surgiu a porta que eu viria a abrir. Feito, o nada acabou e deu lugar a mais nada.A sala que se materializou diante dos meus olhos que nada viam estava, igualmente, repleta de nada. Branca, alta, grande, surgiu-lhe uma cadeira no centro e uma janela ao lado. Estava aberta e as cortinas dançavam ao som do nada. Por nada, sentei-me e, por nada, olhei para fora. A paisagem era, curiosamente, pintada de nada e para o nada fiquei a olhar. Aí pensei que, se nada é nada, sendo o nada algo, o que deveria estar eu a ver a partir de uma sala e de uma janela que mostram nada? A resposta surgiu leve na minha mente: nada. Um céu, uma estrada, um ciclo social, um carro, um som? Nada.
Há dias em que vemos a vida dividida em duas mãos: uma cheia de nada e outra de coisa nenhuma. Nesses dias, percorremos corredores de nada e encontramos salas com ornamentos de coisa nenhuma, rigorosamente limitadas a cadeiras e janelas de nada. Olhando através das janelas, vemos nada atrás de nada. São dias de nada que nada nos mostram, mas que ensinam muito mais do que nada, já que o nada é algo e algo não é nada.
Uma representação solitária; um palco com nada; citações de nada, sobre o nada e o nada que o nada é… O solilóquio do nada acabou por se tornar, literalmente, um dia de nada.
E este foi um dia de nada.
1 comentário:
Gostei. Tipo muito. :)
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