Certo dia, o sonhador tornou pisar a terra dos sonhadores. Estava deserta, claro, mas ele sentia-se quente. E frio. O calor provinha do seu pensamento intacto, mas a frieza da sua desgraça fazia com que chovesse naquele caminho deserto, na terra dos sonhadores.
O sonhador ia percorrendo o caminho ao som melancolicamente melodioso da chuva sem nunca se molhar, passando pelas bandeiras e flores dos vasos que jamais secariam. E caminhava sem perceber o voar do tempo, que só por essa vez não o preocupava, pensado na semelhança entre a profundidade de um rio e a longitude da infelicidade de um sonhador.
Parou junto da tabela que marcava o caminho que o levaria ao passo seguinte. Não o seguiu, porque é sonhador e o sonhador tem um outro mal que é picar a sua infelicidade… E a chuva cai. Baixa a cabeça e solta um suspiro que lhe limpa parte da alma e solta alguns pingos de chuva. Vira-se, confrontando de novo o caminho da terra do sonhador a que acabara de virar as costas. Percorre-o outra vez, ao som da chuva que, pouco a pouco, vai cessando.
Quando a chuva o deixa de vez, decide sentar-se debaixo da magnólia que, curiosamente, acaba de florescer e devolve um pouco de cor à terra do sonhador. E, depois, calca o solo seco ao som da música que o faz pensar. É tudo psicológico, excepto quando dói. E a dor que mais magoa não é a que deixa a pele com marcas, é sim a que provoca olheiras, frio e chuva; tudo coisas que completam a vida do sonhador.
Entretanto, a chuva volta e as flores encolhem-se na árvore que as criou quando o sonhador se volta a concentrar no ponto onde dói. É aí que leva as mãos à cabeça e pensa nas misérias de se ser sonhador: a solidão e a falta de compreensão e o medo da falta de compreensão são o cancro do sonhador.
E dói.
É o fardo que o sonhador tem de carregar por ser incompreendido pelos lineares que têm rotinas e não sonham de olhos abertos. Quando o que sonha percorre as ruas de uma cidade, não vê os homens a passar como um outro qualquer. Ele sente-os. E a sua rapidez torna-se uma linha de luz que marca o lugar por onde passam, fugazes. O sonhador apenas a presencia, sozinho. Os olhos a varrer o trajecto da luz do homem… é uma droga: uma droga que arrasta a mente a algo que apenas o sonhador sabe. Eis o porquê de ser incompreendido: o sonhador sente mais do que os outros, porque é sensível. O sensível é sonhador. O insensível é real e o real é insensível e segue a sua rotina com uma luz que lhe segue o movimento atroz. Pelo contrário, ao fim do dia, o sonhador fecha o seu livro com a chuva dos seus olhos e apaga a luz. E sonha. É este o sonho do sonhador que mais se parece com o dos homens reais: o sonho da noite, o sonho da divagação da mente, o mover imparável dos olhos durante o sono.
Quando acorda, o sonhador vai sentir o sol. Promete não voltar a cair no poço dos seus pensamentos infelizes, visto que são eles o elo da incompreensão e da vida de um sonhador. Mas volta. É este o ciclo do pensamento infeliz que faz com que chova nos olhos do sonhador, sentindo ele as lágrimas correr pelo rosto e pensando nos males de ser sonhador. E dói, porque a dor é mesquinha e traiçoeira. Ela nasceu do físico e do psicológico, sendo que tem os olhos da mãe. O corvo que a trouxe expunha uma nota a dizer: a chuva é igual à infelicidade e é por isso que a dor dói.
2 comentários:
Dá gosto ler-te. :)
Gostei :)
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