Hannokan estava sentado; suas pernas escrevendo um x e o rosto apoiado numa mão. Ao som daquela maravilhosa junção de piano e violino, o pensamento dele voava sob uma névoa de infelicidades. Pelos seus lados, dizia-se que a ténue cor dos seus olhos se devia às lágrimas que nunca conseguia conter.
Estou a morrer, pensava ele. Sempre faltara mais. Agora, no auge do desmaio das suas capacidades físicas, só lhe restava ficar sentado a escutar os sons que lhe faziam perguntar o porquê de nunca ter sorrido à vida.
Porquê? Muitos são os que sorriem para a vida e tu nunca foste um deles. Sempre preferiste fazer as tuas caminhadas sozinho; pintaste as telas que nunca ninguém viu; rasuraste papel para mais ninguém além de ti e nunca te chamaste egoísta por isso. No entanto, choraste por alguém que nunca veio; rogaste pragas a gente que não conheceste e, todos os dias, colocaste pratos, copos e talheres numa mesa para muitos mais do que tu. Nunca conheceste a palavra tristeza, mas sempre a sentiste. Hoje choras mais pela tua carência social do que pelos ossos de vidro que te prendem ao chão. Para quem foram todas aquelas cartas que escreveste e afogaste num rio? Sempre escreveste o que te ia na mente, velho de vidro, sempre pintaste o que te ia no coração, velho de vidro, e sempre tocaste o que te ia na alma. Alma, coração e mente – não é suposto estarem unidos? Pois as tuas cartas caracterizavam um mundo que é redondo; as tuas telas idealizavam um mundo quadrado; e as tuas baladas soavam tal qual um mundo disforme, onde tudo é de alcance possível se se tiver asas.
Eu tenho asas e tu também pensas ter. Eu senti o que tu sentiste quando recebeste uma carta extraviada… estava ela tão próxima de ti, contendo uma notícia; um choro de saudade; um dilema de preocupação de alguém, algures, algum dia, alguma noite, numa qualquer hora… e afinal a carta que começava com um melodioso “querido amigo” não era para ti. Bem reparei nas lágrimas que derreteram os teus olhos. Os teus joelhos bateram no chão e a carta escapou-se-te das mãos quando chegaste ao fim da leitura e não viste o teu nome. O teu coração rasgou-se ali, não foi, velho de vidro? Rasgou-se e o vento varreu-o até as minhas mãos estendidas. Eu sou invisível aos teus olhos, embora penses ter asas. Agora não te podes levantar. Tens as telas ao teu alcance, assim como as folhas brancas do teu caderno, mas não podes chegar ao piano. Falta-te um ponto na tua vida de vidro.
A minha cor preferida é o verde. A tua é o castanho avermelhado. Sempre adoraste desenhar o Outono por isso. Esses são os teus mais belos quadros. Neles as personagens dançam, embora não se consigam mexer, e neles as folhas das árvores cantam e a terra do chão toca a mais pura melodia… A utopia do Outono.
Suspiro. Tu nunca suspiraste. Nunca te constipaste. Sempre definhaste. Sempre passaste as mãos compridas pelos olhos e nunca tiveste quem te estendesse um lenço. Por que motivo nunca chamaste por mim? Hoje aqui estou, velho de vidro, e a palavra que mais te vejo estampada no rosto é a palavra feia da solidão. Quando caíste no dia do teu sexto aniversário e foste privado de sair à rua, desististe de tudo, excepto três coisas. Os anos foram passando e tu continuavas sem querer mais nada… a tua família foi-se e tu continuaste apegado aos três pontos que, sem acompanhamento algum, fizeram de ti o que és hoje. És um solitário, velho de vidro, sempre foste um solitário e hoje a tua vida de solitário vai terminar como sempre a conheci.
Apenas hoje, no teu último dia, te vou contar o porquê de não ter falado mais cedo. Quando o vento empurra, eu apareço e ajudo. Mas tu nunca quiseste a minha ajuda; nunca quiseste partilhar nada com ninguém, nem mesmo a tua dor. Tu conhecias-me, velho, sabes que sim. Desenhaste-me muitas vezes nas tuas telas outonais e primaveris, onde o verde reina junto ao castanho avermelhado. A minha cor e a tua. Mas nunca me quiseste ver, nunca me quiseste sentir. Nunca quiseste as minhas asas – querias umas só para ti. Por isso, eu não te ajudei. Só te vi definhar, velho de vidro, e sempre com uma lágrima no olho, tal como tu. Contudo, a minha dor é mais insuportável do que a tua, porque a tua termina hoje – a minha vai prolongar-se, porque eu não termino. Sou um ciclo com asas verdes. A culpa de ter correntes de dor que me agarram as pernas é tua, vidro, tua e só tua. Arrepende-te neste minuto que te sobra do horror de ser solitário egoísta e morre nos confins do castanho avermelhado. Eu acabarei por voltar ao verde.
Hannokan fechou, por fim, os olhos e o choro de uma vida espalhou-se pelo chão. O vento abriu a janela entreaberta dum espaço que sempre rejeitou a luz e iluminou um homem pálido cujos olhos adquiriram a cor das lágrimas. Os objectos colocados por cima da mesa onde trabalhava foram arrastados pela brisa oriental. Lá fora, as cerejeiras brancas pediam a atenção que nunca lhes foi dada. Ele foi-se.
As cartas vieram ter a mim, velho de vidro. Vi os teus quadros ao pormenor através de uma lupa e ouvi as tuas melodias pacificamente sentada num dos poucos móveis que a tua casa guarda. Nunca estiveste tão sozinho como pensavas, mas pelo menos morreste sabendo que as minhas asas têm a cor mais bonita que a Natureza criou. E viste-me voar, velho homem de vidro, Iseree que sou.
Estou a morrer, pensava ele. Sempre faltara mais. Agora, no auge do desmaio das suas capacidades físicas, só lhe restava ficar sentado a escutar os sons que lhe faziam perguntar o porquê de nunca ter sorrido à vida.
Porquê? Muitos são os que sorriem para a vida e tu nunca foste um deles. Sempre preferiste fazer as tuas caminhadas sozinho; pintaste as telas que nunca ninguém viu; rasuraste papel para mais ninguém além de ti e nunca te chamaste egoísta por isso. No entanto, choraste por alguém que nunca veio; rogaste pragas a gente que não conheceste e, todos os dias, colocaste pratos, copos e talheres numa mesa para muitos mais do que tu. Nunca conheceste a palavra tristeza, mas sempre a sentiste. Hoje choras mais pela tua carência social do que pelos ossos de vidro que te prendem ao chão. Para quem foram todas aquelas cartas que escreveste e afogaste num rio? Sempre escreveste o que te ia na mente, velho de vidro, sempre pintaste o que te ia no coração, velho de vidro, e sempre tocaste o que te ia na alma. Alma, coração e mente – não é suposto estarem unidos? Pois as tuas cartas caracterizavam um mundo que é redondo; as tuas telas idealizavam um mundo quadrado; e as tuas baladas soavam tal qual um mundo disforme, onde tudo é de alcance possível se se tiver asas.
Eu tenho asas e tu também pensas ter. Eu senti o que tu sentiste quando recebeste uma carta extraviada… estava ela tão próxima de ti, contendo uma notícia; um choro de saudade; um dilema de preocupação de alguém, algures, algum dia, alguma noite, numa qualquer hora… e afinal a carta que começava com um melodioso “querido amigo” não era para ti. Bem reparei nas lágrimas que derreteram os teus olhos. Os teus joelhos bateram no chão e a carta escapou-se-te das mãos quando chegaste ao fim da leitura e não viste o teu nome. O teu coração rasgou-se ali, não foi, velho de vidro? Rasgou-se e o vento varreu-o até as minhas mãos estendidas. Eu sou invisível aos teus olhos, embora penses ter asas. Agora não te podes levantar. Tens as telas ao teu alcance, assim como as folhas brancas do teu caderno, mas não podes chegar ao piano. Falta-te um ponto na tua vida de vidro.
A minha cor preferida é o verde. A tua é o castanho avermelhado. Sempre adoraste desenhar o Outono por isso. Esses são os teus mais belos quadros. Neles as personagens dançam, embora não se consigam mexer, e neles as folhas das árvores cantam e a terra do chão toca a mais pura melodia… A utopia do Outono.
Suspiro. Tu nunca suspiraste. Nunca te constipaste. Sempre definhaste. Sempre passaste as mãos compridas pelos olhos e nunca tiveste quem te estendesse um lenço. Por que motivo nunca chamaste por mim? Hoje aqui estou, velho de vidro, e a palavra que mais te vejo estampada no rosto é a palavra feia da solidão. Quando caíste no dia do teu sexto aniversário e foste privado de sair à rua, desististe de tudo, excepto três coisas. Os anos foram passando e tu continuavas sem querer mais nada… a tua família foi-se e tu continuaste apegado aos três pontos que, sem acompanhamento algum, fizeram de ti o que és hoje. És um solitário, velho de vidro, sempre foste um solitário e hoje a tua vida de solitário vai terminar como sempre a conheci.
Apenas hoje, no teu último dia, te vou contar o porquê de não ter falado mais cedo. Quando o vento empurra, eu apareço e ajudo. Mas tu nunca quiseste a minha ajuda; nunca quiseste partilhar nada com ninguém, nem mesmo a tua dor. Tu conhecias-me, velho, sabes que sim. Desenhaste-me muitas vezes nas tuas telas outonais e primaveris, onde o verde reina junto ao castanho avermelhado. A minha cor e a tua. Mas nunca me quiseste ver, nunca me quiseste sentir. Nunca quiseste as minhas asas – querias umas só para ti. Por isso, eu não te ajudei. Só te vi definhar, velho de vidro, e sempre com uma lágrima no olho, tal como tu. Contudo, a minha dor é mais insuportável do que a tua, porque a tua termina hoje – a minha vai prolongar-se, porque eu não termino. Sou um ciclo com asas verdes. A culpa de ter correntes de dor que me agarram as pernas é tua, vidro, tua e só tua. Arrepende-te neste minuto que te sobra do horror de ser solitário egoísta e morre nos confins do castanho avermelhado. Eu acabarei por voltar ao verde.
Hannokan fechou, por fim, os olhos e o choro de uma vida espalhou-se pelo chão. O vento abriu a janela entreaberta dum espaço que sempre rejeitou a luz e iluminou um homem pálido cujos olhos adquiriram a cor das lágrimas. Os objectos colocados por cima da mesa onde trabalhava foram arrastados pela brisa oriental. Lá fora, as cerejeiras brancas pediam a atenção que nunca lhes foi dada. Ele foi-se.
As cartas vieram ter a mim, velho de vidro. Vi os teus quadros ao pormenor através de uma lupa e ouvi as tuas melodias pacificamente sentada num dos poucos móveis que a tua casa guarda. Nunca estiveste tão sozinho como pensavas, mas pelo menos morreste sabendo que as minhas asas têm a cor mais bonita que a Natureza criou. E viste-me voar, velho homem de vidro, Iseree que sou.
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