domingo, 30 de novembro de 2008

* Mashli I

Querida Mashli,

Se todos fôssemos madeira desconjunta, não haveria falta de oxigénio. Jamais seríamos assaltados pela claustrofobia e esqueceríamos a fala.
Espíritos têm-nos também os elementos. Se fosses elemento serias a Terra. Pensei também no Fogo, mas a parte tua que é vocábulo é sinónimo de lealdade e tal não arde. A Terra. Eu seria a Água ou, possivelmente, o Ar, mas a Terra serias tu. Por vezes penso que tens raízes que te prendem ao solo. Dir-te-ão algo os pássaros? Sim, Mashli, eu sei que dizem e cantam. O eu deles que é vocábulo é sinónimo de liberdade.
Terra é o teu nome do meio, já que não sabes voar. Voa, Mashli, e sê feliz, nem que por um dia. Ou então mergulha. Eu dou-te as mãos. Arrisca, mas não te afogues, porque, mesmo com seis membros, os pulmões é que ditam o ar que respiras. Funde-te com outro elemento, para que não sejas só Terra. Sê Ar, Mashli, ou sê Água ou sê Fogo, mas voa por um dia que seja. Um outro elemento completar-te-á. O dilema tu conhece-lo bem. O dilema é o pormenor da esfinge: tens de perceber qual outro elemento és.

H.

Maio de 2008

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

* Iseree II

Por onde andas, minha querida Iseree?
Penso que deverias despedir-te das tuas tão merecidas férias e voltar ao imenso redondo de todas as cores para cobrir os gelados.
Por cá sente-se frio, Iseree. E o vermelho deixou de se ver. O verde também, curioso. O azul teve o mesmo destino.
Houve uma outra que se tornou constante. O que me dizes do cinzento?
Sim, eu sei que é a tua cor preferida, mas não deixa de reflectir o neutro que em nós vive. Aliás, a oitava letra do abecedário é quem nos melhor conhece. Porque vejamos: conhecemo-nos a nós em nós confiamos o que de nós acontece e acontece a nós, porque somos nós e só a nós o nós nos diz respeito e só nós nos merecemos, se é que merecemos algum nós que nós sejamos.
Quem nos conhece, afinal? Quem conhecemos?
Precisamente:
- Ninguém – diz a voz silenciosa.
Curioso que sai uma palavra da garganta, do nariz ou da boca e espalha-se pelas rosas, silvas e árvores.
Uma vez mais: onde andas, querida Iseree?
Onde está a tua tela de azuis e amarelos?
Volta, por favor… Tenho frio e não tarda estarei cega.
Quero acordar à luz da gélida manhã, ouvindo os acordes de quem sente, rodeada pelo verde da esperança que já não existe, saber sorrir e agradecer.
Lembrem-se: o vento só empurra.

terça-feira, 18 de novembro de 2008

Mickey Mouse


Diz que o rato mais famoso do mundo faz anos hoje.
Oitenta anos: estás velho.

* Conversas de Anjos II

Sentaste-te costas com costas comigo e disseste:
- As nuvens estão escuras.
Eu não disse nada e mantive a cabeça apoiada nas mãos e estas nos joelhos.
- Estive a observar o jardim. Hoje, apenas uma magnólia não floriu. Acho que as nuvens não se abriram para ela, afinal. Que dizes?
Não demorei muito a pensar numa resposta.
Possivelmente, a magnólia está cansada de florir todos os dias para ver apenas o mesmo jardim de flores, disse.
- Mas um jardim muda todos os dias. Alguns dos seus habitantes mudam-se ou vão e novos chegam.
A magnólia não se deve interessar pela vizinhança, então, disse eu com um suspiro.
- Mas um jardim interessa-se por todos os seus condimentos, sabes?
Aí arrancaste-me um sorriso dos lábios; quem mais usaria a palavra condimento fora de uma sopa?
- As nuvens estão escuras e eu sei porquê. Tu deves saber também. E, se a magnólia não quer saber dos vizinhos, por que se levanta ela cedo e se recolhe à tardinha? Algo me diz que esta magnólia semi-autista ainda consegue sentir afecto por, talvez, outras magnólias.
Acordaste-me! Estalo na mente…
Sim, julgo que se virmos o quadrado representado com essas invisíveis fará dele um cubo, disse.
- Tinhas asas. Por que foste?
Caíram. Tive de fugir.
- Tinhas pétalas e tinhas folhas. Por que foste?
Porque as asas caíram primeiro.
- E as nuvens?
As nuvens estão sempre no céu, leves ou carregadas e até mesmo invisíveis.
Sorrimos.
Depois expliquei-te que, embora não aparentem, os cactos são sensíveis e esse é o motivo pelo qual têm espinhos. Por vezes encontram-se magnólias com espírito cacticída. Talvez não queiram ver o jardim nesses tempos e talvez por isso as nuvens escureçam também.
- As nuvens estão sempre no céu, apesar de tudo.
Dito isto, mudaste de posição por um momento, durante o qual me deste um beijo na parte lateral da cabeça – os teus carinhos reconfortantes. Agradeci e, dessa vez, não atirei o saco ao ombro e calquei o chão.
Subitamente, as nuvens pareciam mais claras.


(Aluap & Egroj)

domingo, 16 de novembro de 2008

* Sonhador II: O Sentimento

Certo dia, o sonhador tornou pisar a terra dos sonhadores. Estava deserta, claro, mas ele sentia-se quente. E frio. O calor provinha do seu pensamento intacto, mas a frieza da sua desgraça fazia com que chovesse naquele caminho deserto, na terra dos sonhadores.
O sonhador ia percorrendo o caminho ao som melancolicamente melodioso da chuva sem nunca se molhar, passando pelas bandeiras e flores dos vasos que jamais secariam. E caminhava sem perceber o voar do tempo, que só por essa vez não o preocupava, pensado na semelhança entre a profundidade de um rio e a longitude da infelicidade de um sonhador.
Parou junto da tabela que marcava o caminho que o levaria ao passo seguinte. Não o seguiu, porque é sonhador e o sonhador tem um outro mal que é picar a sua infelicidade… E a chuva cai. Baixa a cabeça e solta um suspiro que lhe limpa parte da alma e solta alguns pingos de chuva. Vira-se, confrontando de novo o caminho da terra do sonhador a que acabara de virar as costas. Percorre-o outra vez, ao som da chuva que, pouco a pouco, vai cessando.
Quando a chuva o deixa de vez, decide sentar-se debaixo da magnólia que, curiosamente, acaba de florescer e devolve um pouco de cor à terra do sonhador. E, depois, calca o solo seco ao som da música que o faz pensar. É tudo psicológico, excepto quando dói. E a dor que mais magoa não é a que deixa a pele com marcas, é sim a que provoca olheiras, frio e chuva; tudo coisas que completam a vida do sonhador.
Entretanto, a chuva volta e as flores encolhem-se na árvore que as criou quando o sonhador se volta a concentrar no ponto onde dói. É aí que leva as mãos à cabeça e pensa nas misérias de se ser sonhador: a solidão e a falta de compreensão e o medo da falta de compreensão são o cancro do sonhador.
E dói.
É o fardo que o sonhador tem de carregar por ser incompreendido pelos lineares que têm rotinas e não sonham de olhos abertos. Quando o que sonha percorre as ruas de uma cidade, não vê os homens a passar como um outro qualquer. Ele sente-os. E a sua rapidez torna-se uma linha de luz que marca o lugar por onde passam, fugazes. O sonhador apenas a presencia, sozinho. Os olhos a varrer o trajecto da luz do homem… é uma droga: uma droga que arrasta a mente a algo que apenas o sonhador sabe. Eis o porquê de ser incompreendido: o sonhador sente mais do que os outros, porque é sensível. O sensível é sonhador. O insensível é real e o real é insensível e segue a sua rotina com uma luz que lhe segue o movimento atroz. Pelo contrário, ao fim do dia, o sonhador fecha o seu livro com a chuva dos seus olhos e apaga a luz. E sonha. É este o sonho do sonhador que mais se parece com o dos homens reais: o sonho da noite, o sonho da divagação da mente, o mover imparável dos olhos durante o sono.
Quando acorda, o sonhador vai sentir o sol. Promete não voltar a cair no poço dos seus pensamentos infelizes, visto que são eles o elo da incompreensão e da vida de um sonhador. Mas volta. É este o ciclo do pensamento infeliz que faz com que chova nos olhos do sonhador, sentindo ele as lágrimas correr pelo rosto e pensando nos males de ser sonhador. E dói, porque a dor é mesquinha e traiçoeira. Ela nasceu do físico e do psicológico, sendo que tem os olhos da mãe. O corvo que a trouxe expunha uma nota a dizer: a chuva é igual à infelicidade e é por isso que a dor dói.

sábado, 15 de novembro de 2008

* Sonhador I: A Mensagem

Podias percorrê-lo de uma ponta à outra que nunca encontrarias ninguém.
No chão permaneciam os vestígios da chuvada do dia anterior e as bandeiras dançavam a canção do vento.
Apenas os sonhadores o pisaram e só eles sabiam o porquê de não haver lixo no chão nem flores secas nos vasos.
Sonhador é todo aquele que começa a falar falando sozinho e cresce a falar sozinho, sem nunca completar uma ideia verbalmente. Vive a falar sozinho, porque teme que não o ouçam. Sonha em plantar um feijoeiro algures no jardim e em vê-lo passar de semente a raiz, mas no fim desilude-se, porque o seu feijoeiro é só mais um feijoeiro, embora se console porque o seu feijoeiro é o único feijoeiro de um sonhador. Mas não é e quem é sonhador sabe-o bem. Por isso, os sonhadores mentem a si próprios.
O bom de ser sonhador é que há sempre algo a associar. As personagens que lemos são sempre benfeitores de vidas e todos os sons que ouvimos são, de certa forma, uma lagoa de água cristalina que entra e não mais sai.
O mau de ser sonhador é a solidão. Não há um sonhador que complete outro sonhador, porque os sonhadores são todos os pássaros num bando e todas as pétalas de uma magnólia.
É triste ou acaba por ser.
São delicados, os sonhadores. E arrepiam-se e cortam-se e sujam-se e molham-se, mas nunca esticam pernas e correm, muito menos puxam os seus pescoços sem abrir os olhos (embora o façam).
Há sempre um espaço a preencher. O erro do buraco de Ozono no corpo do que sonha. Irónico para quem assiste sem toque, mas quem sofre de tacto permanente e conhece realmente o sonhador, acaba por sofrer do mesmo cancro. Mas não o vive, porque vivê-lo cabe ao sonhador.
Para quem não é sonhador só resta dizer que eles sonham com a presença da música, que sai da terra, das nuvens, do fogo e da água. Com um ponto alto, sabem lá eles onde fica, onde se vê o mundo em forma de formigueiro. Com os rios a espelhar o céu e com os fins de tarde e os inícios de dia. Tudo deles, tudo neles e eles em tudo.
E sofrem, porque o que têm nunca vai completar o enredo de uma história nem um caminho onde não se vê ninguém, porque esse caminho é nada mais do que o sonho do sonhador.

domingo, 9 de novembro de 2008

* Solilóquio do nada

Os meus passos de nada ecoavam no corredor. Lembro-me que caminhava rumo ao nada, o nada seguindo-me e cercando-me e o nada reflectindo o som dos meus passos que pouco mais do que nada sabiam. O nada acabou quando surgiu a porta que eu viria a abrir. Feito, o nada acabou e deu lugar a mais nada.A sala que se materializou diante dos meus olhos que nada viam estava, igualmente, repleta de nada. Branca, alta, grande, surgiu-lhe uma cadeira no centro e uma janela ao lado. Estava aberta e as cortinas dançavam ao som do nada. Por nada, sentei-me e, por nada, olhei para fora. A paisagem era, curiosamente, pintada de nada e para o nada fiquei a olhar. Aí pensei que, se nada é nada, sendo o nada algo, o que deveria estar eu a ver a partir de uma sala e de uma janela que mostram nada? A resposta surgiu leve na minha mente: nada. Um céu, uma estrada, um ciclo social, um carro, um som? Nada.
Há dias em que vemos a vida dividida em duas mãos: uma cheia de nada e outra de coisa nenhuma. Nesses dias, percorremos corredores de nada e encontramos salas com ornamentos de coisa nenhuma, rigorosamente limitadas a cadeiras e janelas de nada. Olhando através das janelas, vemos nada atrás de nada. São dias de nada que nada nos mostram, mas que ensinam muito mais do que nada, já que o nada é algo e algo não é nada.
Uma representação solitária; um palco com nada; citações de nada, sobre o nada e o nada que o nada é… O solilóquio do nada acabou por se tornar, literalmente, um dia de nada.

E este foi um dia de
nada.

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

* Iseree I


Devido a oscilações do vento, Iseree viajou pelo mundo.
O pânico esconde-se em todo o lado. Por vezes dá a cara e traz infelicidade. Nessas alturas, o vento empurra Iseree pelo mundo fora, uma e outra vez. O medo cruza-se com a infelicidade, originando cegos e gelados. Iseree dá a mão. O azul do gelo e das lágrimas junta-se, então, ao amarelo, seu amigo de sempre, originando, por sua vez, o verde, a cor da esperança. Iseree sobrepõe-se ao medo e à infelicidade, limpa os olhos aos cegos e cobre os gelados. Tudo acaba por ficar bem.
Andromeda ficou sem marido, filha e genro. Deixaram-lhe uma criança. E, mesmo sendo uma personagem irrelevante, Iseree ajudou. Também por ela passou o ciclo do azul-amarelo-verde.
Na luz gélida da manhã, os acordes despertam quem sente. Andromeda acorda, rodeada pelo verde da esperança, na luz gélida do dia. Lembra-se como se sorri e agradece.
O vento empurra outra vez. Pânico, infelicidade, Iseree, azul-amarelo-verde. E outra vez. Pânico, infelicidade, Iseree, azul-amarelo-verde.
Iseree tem alma, Iseree ouve os acordes da gélida luz do dia, Iseree sente. É Iseree quem melhor conhece o verde. O vento é só quem empurra, ajudando assim a formar o ciclo do azul-amarelo-verde, o ciclo da felicidade-infelicidade, o ciclo da vida.


3 de Agosto de 2007

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

I Narcisismo

Quando eu te encarei
Frente a frente
Não vi o meu rosto
Chamei de mau gosto o que vi
De mau gosto o mau gosto
É que Narciso acha feio
O que não é espelho
E a mente apavora o que ainda
Não é mesmo velho
Nada do que não era antes
Quando não somos mutantes.
Caetano Veloso