terça-feira, 27 de setembro de 2011

* Conversas de Anjos IV

- O que é ao certo estar em casa?
Foi o inicio de dia mais calmo que as ruas daquela cidade testemunharam. A aurora levantava e havia ainda vestígios de felicidade da noite anterior. Sentadas no estrado de uma estátua, notavam-se duas silhuetas no raiar azul. Conversavam. E a luz aumentava, à medida que as palavras soltas escreviam uma história.
Sentámo-nos costas com costas muitas horas antes, ainda a cidade era viva. Tu compreendeste logo o porquê de eu não encarar a lua; às vezes é mais fácil admitir a existência de reentrâncias em saliências não olhando as pessoas nos olhos. Neste caso, era assim mesmo: eu a admitir em voz alta para alguém que não eu que sou um larífugo do meu próprio mundo. Eu ia falando e tu ouvias-me. E, nas minhas pausas, o tom sábio da tua voz calma que aconselha era um abraço.
Contei-te o meu livro dos falsos amores e, num oceano de suspiros e enfins, o rum foi-se sumindo da garrafa. Levaste-me a casa, porque casa é onde te sentes em paz. A minha casa. Uma noite há muito prometida.



(Aluap.Oãoj)

domingo, 11 de setembro de 2011

11 de Setembro 2001 - Dez anos depois

Lembro-me bem do meu 11 de Setembro de há 10 anos atrás.
A minha melhor amiga de nove anos e a irmã dela foram lá a casa, numa tarde solarenga ainda em tempo de férias, e passámos um dia divertido a apanhar rãs. Não me lembro o que faziam os meus pais, ou se estavam sequer em casa, nem tenho ideia da presença da minha irmã, mas, a meio da tarde, eu, espantando-me a mim mais do que a qualquer outra pessoa, decidi que ia apresentar a minha avó paterna às minhas amigas. E assim foi: de bicicleta, pedalamos a freguesia duma ponta à outra.

Quando cheguei a casa da minha avó, estranhei por ver tudo tão silencioso e pouco movimentado. Abri a porta de casa e entrei em pânico. Os meus (ainda) quatro avós estavam sentados em frente à televisão. As avós choravam; os avós tinham o ar mais carregado de que me lembro. Curioso não ter memórias muito lúcidas do meu avô paterno nesse dia, o homem que viveu nos Estados Unidos. Mas imagino bem um estado de alma a quem destroem o palco da vida passada, sentado no cadeirão com um grande copo de café à frente e uma mão a amparar a cabeça pesada.

Nesse dia, regressei a casa cansada e triste. Na altura, não percebi o impacto que todo aquele fumo, confusão e gritos teriam na história mundial. Só me preocupou o facto de estarem a chorar. Hoje, as estimadas 2996 vítimas das torres gémeas e do Pentágono pesam nas extensas páginas dos jornais, pesam nos filmes, documentários e notícias que passam nas televisões; mas pesam sobretudo nas vidas dos que ficaram para testemunhar.

O 11 de Setembro de 2001 marcou o mundo com a palavra terrorismo. No "dia que mudou o mundo", tornou-se claro que é impossível ignorar essa ameaça internacional, depois da escalada de violência que assumiu proporções inesperadas e que constitui actualmente um verdadeiro desafio para os Estados. Tal facto, diz-se, deveu-se ao ressurgimento do fundamentalismo religioso e ao recrudescimento dos conflitos regionais e locais, dos nacionalismos e separatismos, com o fim da Guerra Fria. E não se limitou aos Estados Unidos: a Europa digladia-se com o terrorismo basco, irlandês, tchetcheno, albanês, bósnio; a América Latina luta com os actos terroristas ocorridos na Colômbia; a Ásia sofre com o terrorismo religioso e político ocorrido na Indonésia, Filipinas, Paquistão, Índia, Sri Lanka, Afeganistão, Síria, Israel, Turquia, Iraque...; a África não tem destino diferente com todos os tumultos dos países que lutam pela liberdade. Guerra. Intolerância. Terror.

Por isso, urge-se a continuação da difícil busca pela harmonia, através daquele (que parece infindável) confronto contra a proliferação de armas, o armamento nuclear, as armas químicas e biológicas e, sobretudo, contra o mau senso de comunidade, contra os extremismos e a guerra. Urge-se paz.

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Incríveis coisas marcantes XXIII - "2011 London riots"

Confesso que tanta violência me deixa triste.

Mark Duggan, alegado traficante de droga e membro dum gang, foi morto na sequência de um confronto com a Operation Trident, unidade policial de Londres, no ainda recente 4 de Agosto, em Tottenham.

Esta poderia ser mais uma história duma morte às mãos da polícia britânica, num cenário negro de negócios de estupefacientes, não fosse ter sido considerada por muitos o "gatilho" dos tumultos que cercaram Londres nestes últimos dias, os dias após a morte de Mark Duggan.

Tudo começou numa pacífica marcha de protesto, organizada pelos familiares e amigos de Duggan no dia 6 de Agosto, que acabaria por juntar cerca de 200 pessoas. O percurso era simples: teria início em Broadwater Farm e terminaria junto à esquadra de Tottenham; não ficou por aí, porém, culminando nas manchetes dos jornais dos dias seguintes com uma sequência de imagens violentas e títulos sugestivos de protestos agressivos.

Nessa memorável noite de 6 de Agosto, provocou-se incêndios, partiu-se vidros, assaltou-se e destruiu-se lojas, arremessou-se armas incendiárias a todo o tipo de alvos - o caos e a desordem instalaram-se, sob o manto da raiva e da agressão. O resultado? 26 polícias feridos, dezenas de famílias desalojadas, comércio arruinado, edifícios desfeitos... A violência cegou as pessoas. Prova disso é o episódio dos "2011 London riots" que mais me chocou: um grupo de jovens que conscientemente lançou garrafas a um carro onde uma família com um bebé se protegia dos motins.
E este teatro de conflitos não parou por aí. Nos dias seguintes, a onda de destruição permaneceu, agora distribuída por
Enfield, Waltham Forest e Islington, Brixton e Oxford Circus, o coração de Londres. Mais vandalismo, mais pilhagens, mais incêndios, mais agressões; mais feridos, mais desalojados, mais quebras no comércio, mais de 100 pessoas detidas e uma primeira morte, hoje, dum jovem de 26 anos, baleado num carro. David Cameron, primeiro-ministro do Reino Unido, surge das suas tranquilas férias em Itália para comunicar que esta vaga de tumultos é "absolutamente inaceitável" e que os culpados têm de ser "severamente castigados".

Depois dos Indignados de Espanha, que viriam a alastrar-se genericamente pelo mundo, o que começou por ser uma manifestação de luto em Londres virou demonstração de descontentamento social. Os jovens interpelados queixam-se de falta de trabalho e de condições sociais precárias. Não têm emprego, não têm nada a perder. Por isso, dão asas à violência como meio de manifestação do seu desagrado - do mesmo modo que em tempos se faria arte. A crise económica mundial criou uma igual crise de valores que assombra a população, cada vez mais cruel.

Urge-se mudança, urge-se paz!

terça-feira, 21 de junho de 2011

XVI Citando um Génio

"Como é que se esquece alguém que se ama? Como é que se esquece alguém que nos faz falta e que nos custa mais lembrar que viver? Quando alguém se vai embora de repente como é que se faz para ficar? Quando alguém morre, quando alguém se separa - como é que se faz quando a pessoa de quem se precisa já lá não está?
As pessoas têm de morrer; os amores de acabar. As pessoas têm de partir, os sítios têm de ficar longe uns dos outros, os tempos têm de mudar Sim, mas como se faz? Como se esquece? Devagar. É preciso esquecer devagar. Se uma pessoa tenta esquecer-se de repente, a outra pode ficar-lhe para sempre. Podem pôr-se processos e acções de despejo a quem se tem no coração, fazer os maiores escarcéus, entrar nas maiores peixeiradas, mas não se podem despejar de repente. Elas não saem de lá. Estúpidas! É preciso aguentar. Já ninguém está para isso, mas é preciso aguentar. A primeira parte de qualquer cura é aceitar-se que se está doente. É preciso paciência. O pior é que vivemos tempos imediatos em que já ninguém aguenta nada. Ninguém aguenta a dor. De cabeça ou do coração. Ninguém aguenta estar triste. Ninguém aguenta estar sozinho. Tomam-se conselhos e comprimidos. Procuram-se escapes e alternativas. Mas a tristeza só há-de passar entristecendo-se. Não se pode esquecer alguem antes de terminar de lembrá-lo. Quem procura evitar o luto, prolonga-o no tempo e desonra-o na alma. A saudade é uma dor que pode passar depois de devidamente doída, devidamente honrada. É uma dor que é preciso aceitar, primeiro, aceitar.
É preciso aceitar esta mágoa esta moinha, que nos despedaça o coração e que nos mói mesmo e que nos dá cabo do juízo. É preciso aceitar o amor e a morte, a separação e a tristeza, a falta de lógica, a falta de justiça, a falta de solução. Quantos problemas do mundo seriam menos pesados se tivessem apenas o peso que têm em si , isto é, se os livrássemos da carga que lhes damos, aceitando que não têm solução.
Não adianta fugir com o rabo à seringa. Muitas vezes nem há seringa. Nem injecção. Nem remédio. Nem conhecimento certo da doença de que se padece. Muitas vezes só existe a agulha.
Dizem-nos, para esquecer, para ocupar a cabeça, para trabalhar mais, para distrair a vista, para nos divertirmos mais, mas quanto mais conseguimos fugir, mais temos mais tarde de enfrentar. Fica tudo à nossa espera. Acumula-se-nos tudo na alma, fica tudo desarrumado.
O esquecimento não tem arte. Os momentos de esquecimento, conseguidos com grande custo, com comprimidos e amigos e livros e copos, pagam-se depois em condoídas lembranças a dobrar. Para esquecer é preciso deixar correr o coração, de lembrança em lembrança, na esperança de ele se cansar."

Miguel Esteves Cardoso, in 'Último Volume'

sábado, 18 de junho de 2011

XV Citando um Génio

Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco
conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura
e bebo a água e sorvo o ar
que te atravessou a cintura
tanto tão perto tão real
que o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura

Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco.

Mário Cesariny

sábado, 11 de junho de 2011

XIV Citando um Génio

“The most important kind of freedom is to be what you really are. You trade in your reality for a role. You trade in your sense for an act. You give up your ability to feel, and in exchange, put on a mask. There can't be any large-scale revolution until there's a personal revolution, on and individual level. It's got to happen inside first. You can take away a man's political freedom and you won't hurt him- unless you take away his freedom to feel. That can destroy him. That kind of freedom can't be granted. Nobody can win it for you.”

Jim Morrison

sábado, 28 de maio de 2011

XIII Citando um Génio

Uma certa quantidade de gente à procura
de gente à procura duma certa quantidade

Soma:
uma paisagem extremamente à procura
o problema da luz (adrede ligado ao problema da vergonha)
e o problema do quarto-atelier-avião

Entretanto
e justamente quando
já não eram precisos
apareceram os poetas à procura
e a querer multiplicar tudo por dez
má raça que eles têm
ou muito inteligentes ou muito estúpidos
pois uma e outra coisa eles são
Jesus Aristóteles Platão
abrem o mapa:
dói aqui
dói acolá

E resulta que também estes andavam à procura
duma certa quantidade de gente
que saía à procura mas por outras bandas
bandas que por seu turno também procuravam imenso
um jeito certo de andar à procura deles
visto todos buscarem quem andasse
incautamente por ali a procurar

Que susto se de repente alguém a sério encontrasse
que certo se esse alguém fosse um adolescente
como se é uma nuvem um atelier um astro

Mário Cesariny

terça-feira, 24 de maio de 2011

domingo, 24 de abril de 2011

Asteriscos XII

E as vozes embarcam 
Num silêncio aflito
Quanto mais se apartam
Mais se ouve o seu grito

Em novas coutadas
Junto de uma hera
Nascem flores vermelhas
Pela Primavera

sexta-feira, 22 de abril de 2011

miau

Asteriscos XI - Porque existem coisas perfeitas

Moon River, wider than a mile,
I'm crossing you in style some day.
Oh dream maker, you heart breaker,
Wherever you're going I'm going your way
Two drifters off to see the world
There's such a lot of world to see
We're after the same rainbow's end
Waiting 'round the bend,
My huckleberry friend,
Moon River and me.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

XI Citando um (absoluto) Génio:

Tired of lying in the sunshine, staying home to watch the rain
You are young and life is long and there is time to kill today.
And then one day you find ten years have got behind you
No one told you when to run, you missed the starting gun.

So you run and you run to catch up with the sun but it's sinking
Racing around to come up behind you again.
The sun is the same in a relative way but you're older,
Shorter of breath and one day closer to death.

Every year is getting shorter never seem to find the time.
Plans that either come to naught or half a page of scribbled lines
Hanging on in quiet desperation is the English way
The time is gone, the song is over,
Thought I'd something more to say.



segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

XVIII Subscrevendo um Génio:

Twirling round with this familiar parabol.
Spinning, weaving round each new experience.
Recognize this as a holy gift and celebrate this chance to be alive and breathing.