
Dás início à tua viagem.
Levas contigo tudo aquilo que viste. Pisas pedras, terra e erva coberta pelo orvalho, enquanto que na tua mente passam imagens do passado que nunca irás esquecer. Lembranças e memórias que dão origem a lágrimas no canto do olho e suspiros de saudade…
Caminhando, relembras tudo aquilo que viveste… As escapadelas de casa porque os pais não deixavam sair; as marcas de vandalismo deixadas pelo grupo em toda a vila; os tempos em que fugir dos velhos policiais, que recebiam queixas de moradores sonolentos pelo barulho ensurdecedor, com o vento gelado a bater na cara e abrir antigas feridas nas mãos, não eram nada mais que rotina de fim-de-semana; pelas corridas discretas a becos escuros para deliciar o vício do tabaco e do álcool; os extensos planos para as férias; o jogar bilhar debaixo de uma nuvem de fumo; os risos e sorrisos mais as vozes dos teus amigos que preenchem a tua mente… Não hás-de esquecer.
O teu saco apenas carrega a carteira e As 100 Histórias à Lareira, que sempre recusaste abandonar. Nas entranhas do livro, inúmeras fotografias gastas pelo tempo, esburacadas, cheias de dedadas e pequenas dobras, marcam as folhas. Essas são a prova viva dos teus pensamentos. Dentro em pouco vais largar de vez tudo isso.
Chegas à estação dez minutos mais cedo. O comboio já está de portas aberta, convidando os passageiros a entrar. Tu não. Olhas à tua volta à espera que o sonho se realize… As largas janelas deixam a luz entrar e de vez em quando sentes pessoas a passar por ti, embora os teus olhos se recusem a ver. Os minutos vão passando… Nos últimos, baixas a cabeça, desiludido. Perdeste. Idealista que és, iludiste-te com os sonhos. Eles não vieram. Libertas-te da posição relaxada do teu corpo e fazes força nos músculos. Pisas o degrau e um ruído faz-te olhar para trás.
Cai-te o queixo. Não podes acreditar, não dá… era um sonho e tu já estavas mentalizado disso, embora não desfeito pela desilusão. Falha-te a mão e largas o saco… eles vieram! Correm ao teu encontro. Uma fila de engravatados e bem vestidos que outrora não largavam as sapatilhas carregadas pelo sentimento emocional olham para ti. Uns, que nunca deixaram a sensibilidade, emocionados e outros, sempre duros com eles próprios, tentando controlar os sentimentos.
- Aos anos, meus irmãos!
E sob a confusão da estação na hora da partida, a família abraça-se.
O comboio faz-se ouvir, furioso com os atrasos. Os antigos companheiros de vida deixam-se e tu, pegando no saco, afastas-te sem mais palavras. Sentado, olhas para a janela e, com os olhos, despedes-te daqueles que não sabes sequer se voltarás a ver. Lá fora, a fila de amigos olha-te com os olhos pesados de emoção…
Sim, como as coisas mudam.
Dás agora início a uma nova viagem… Fechas os olhos e sentes tudo a deslocar-se, ainda maravilhado com a surpresa, coisa que sempre odiaste.
Adeus, família.
Adeus...
Levas contigo tudo aquilo que viste. Pisas pedras, terra e erva coberta pelo orvalho, enquanto que na tua mente passam imagens do passado que nunca irás esquecer. Lembranças e memórias que dão origem a lágrimas no canto do olho e suspiros de saudade…
Caminhando, relembras tudo aquilo que viveste… As escapadelas de casa porque os pais não deixavam sair; as marcas de vandalismo deixadas pelo grupo em toda a vila; os tempos em que fugir dos velhos policiais, que recebiam queixas de moradores sonolentos pelo barulho ensurdecedor, com o vento gelado a bater na cara e abrir antigas feridas nas mãos, não eram nada mais que rotina de fim-de-semana; pelas corridas discretas a becos escuros para deliciar o vício do tabaco e do álcool; os extensos planos para as férias; o jogar bilhar debaixo de uma nuvem de fumo; os risos e sorrisos mais as vozes dos teus amigos que preenchem a tua mente… Não hás-de esquecer.
O teu saco apenas carrega a carteira e As 100 Histórias à Lareira, que sempre recusaste abandonar. Nas entranhas do livro, inúmeras fotografias gastas pelo tempo, esburacadas, cheias de dedadas e pequenas dobras, marcam as folhas. Essas são a prova viva dos teus pensamentos. Dentro em pouco vais largar de vez tudo isso.
Chegas à estação dez minutos mais cedo. O comboio já está de portas aberta, convidando os passageiros a entrar. Tu não. Olhas à tua volta à espera que o sonho se realize… As largas janelas deixam a luz entrar e de vez em quando sentes pessoas a passar por ti, embora os teus olhos se recusem a ver. Os minutos vão passando… Nos últimos, baixas a cabeça, desiludido. Perdeste. Idealista que és, iludiste-te com os sonhos. Eles não vieram. Libertas-te da posição relaxada do teu corpo e fazes força nos músculos. Pisas o degrau e um ruído faz-te olhar para trás.
Cai-te o queixo. Não podes acreditar, não dá… era um sonho e tu já estavas mentalizado disso, embora não desfeito pela desilusão. Falha-te a mão e largas o saco… eles vieram! Correm ao teu encontro. Uma fila de engravatados e bem vestidos que outrora não largavam as sapatilhas carregadas pelo sentimento emocional olham para ti. Uns, que nunca deixaram a sensibilidade, emocionados e outros, sempre duros com eles próprios, tentando controlar os sentimentos.
- Aos anos, meus irmãos!
E sob a confusão da estação na hora da partida, a família abraça-se.
O comboio faz-se ouvir, furioso com os atrasos. Os antigos companheiros de vida deixam-se e tu, pegando no saco, afastas-te sem mais palavras. Sentado, olhas para a janela e, com os olhos, despedes-te daqueles que não sabes sequer se voltarás a ver. Lá fora, a fila de amigos olha-te com os olhos pesados de emoção…
Sim, como as coisas mudam.
Dás agora início a uma nova viagem… Fechas os olhos e sentes tudo a deslocar-se, ainda maravilhado com a surpresa, coisa que sempre odiaste.
Adeus, família.
Adeus...
Domingo, 16 Dezembro de 2007
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