Confesso que tanta violência me deixa triste.
Mark Duggan, alegado traficante de droga e membro dum gang, foi morto na sequência de um confronto com a Operation Trident, unidade policial de Londres, no ainda recente 4 de Agosto, em Tottenham.
Esta poderia ser mais uma história duma morte às mãos da polícia britânica, num cenário negro de negócios de estupefacientes, não fosse ter sido considerada por muitos o "gatilho" dos tumultos que cercaram Londres nestes últimos dias, os dias após a morte de Mark Duggan.
Tudo começou numa pacífica marcha de protesto, organizada pelos familiares e amigos de Duggan no dia 6 de Agosto, que acabaria por juntar cerca de 200 pessoas. O percurso era simples: teria início em Broadwater Farm e terminaria junto à esquadra de Tottenham; não ficou por aí, porém, culminando nas manchetes dos jornais dos dias seguintes com uma sequência de imagens violentas e títulos sugestivos de protestos agressivos.
Nessa memorável noite de 6 de Agosto, provocou-se incêndios, partiu-se vidros, assaltou-se e destruiu-se lojas, arremessou-se armas incendiárias a todo o tipo de alvos - o caos e a desordem instalaram-se, sob o manto da raiva e da agressão. O resultado? 26 polícias feridos, dezenas de famílias desalojadas, comércio arruinado, edifícios desfeitos... A violência cegou as pessoas. Prova disso é o episódio dos "2011 London riots" que mais me chocou: um grupo de jovens que conscientemente lançou garrafas a um carro onde uma família com um bebé se protegia dos motins.
E este teatro de conflitos não parou por aí. Nos dias seguintes, a onda de destruição permaneceu, agora distribuída por Enfield, Waltham Forest e Islington, Brixton e Oxford Circus, o coração de Londres. Mais vandalismo, mais pilhagens, mais incêndios, mais agressões; mais feridos, mais desalojados, mais quebras no comércio, mais de 100 pessoas detidas e uma primeira morte, hoje, dum jovem de 26 anos, baleado num carro. David Cameron, primeiro-ministro do Reino Unido, surge das suas tranquilas férias em Itália para comunicar que esta vaga de tumultos é "absolutamente inaceitável" e que os culpados têm de ser "severamente castigados".
Depois dos Indignados de Espanha, que viriam a alastrar-se genericamente pelo mundo, o que começou por ser uma manifestação de luto em Londres virou demonstração de descontentamento social. Os jovens interpelados queixam-se de falta de trabalho e de condições sociais precárias. Não têm emprego, não têm nada a perder. Por isso, dão asas à violência como meio de manifestação do seu desagrado - do mesmo modo que em tempos se faria arte. A crise económica mundial criou uma igual crise de valores que assombra a população, cada vez mais cruel.
Urge-se mudança, urge-se paz!
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